A Tesoura

setembro de 2009 por

Esse mês contarei a história do meu amigo Vianna. Ele costumava usar calça larga abaixo da cintura, com bolsos fundos para guardar dinheiro – ele não foge às tradições da Santa Terrinha – e uma exótica ceroula de bolinhas, que por sinal ele adorava usar.

Grande torcedor do Vasco, costumava apostar com os amigos, torcedores dos outros times, almoços para o ano inteiro, ou seja, toda vez que o Vasco cruzava com um desses adversários, já valia um almoço.

Essa mania de apostar datava desde dos tempos de infância. Certa vez, quando o estudante Vianna chegou em casa, mostrando animado sua caderneta escolar, sua mãe perguntou:

Casal no restaurante

Foto: Geoff Stearns

– Filho, por que você está tão alegre?
– Mãe, eu ganhei a aposta com o Juquinha. Olha só minhas notas!
– Você tirou melhores notas do que as do seu amiguinho?
– Não.
– Então, por que essa alegria?
– Eu tirei 6 notas vermelhas.
– E isso é bom?
– Meu amigo só teve 5. Eu ganhei dele.

Depois, ele cresceu, criou juízo e estudou seriamente. Mais tarde, porém, voltou a perder o juízo e casou. A “cara metade” do meu amigo tinha um ciúme violento, trazia o moleque em rédea curta. Toda vez que tinha festa na Empresa na qual trabalhávamos, ela o obrigava a levar um dos filhos, por vezes os dois, por medida de segurança dela.

Na empresa, ele era adorado por todos, pois era muito prestativo, sempre pronto a ajudar. Brincava com todo mundo, principalmente com as moças. Era o típico boa praça. Entre essas colegas a que ele brincava mais era a Kika. Era beijinho para lá, beijinho para cá.

Certa feita, meu amigo estava em um bar das redondezas da sua residência, comendo uma pizza e tomando uns refrigerantes com a família. Sua esposa levantou-se e foi ao toalete, deixando meu amigo com seus dois filhos. Neste instante, entrou no estabelecimento a sua amiga Kika, com o seu esposo. Ao ver o amigo Vianna, ela fez aquela festa: abraçou-o, beijou o seu rosto. Exatamente como ele fazia na Empresa com ela.

Olhando em direção ao toalete, e ficando vermelho, ele tentou repeli-la:
– Aqui não, por favor!

Sem entender nada, ela se afastou, no exato momento em que a patroa retornava.

– Vianna, aquela sirigaita está olhando para você. É sua conhecida?
– Não, eu nunca há vi. Aliás, vamos embora.

A esposa desconfiada só resmungou:
– Aí tem!

Naquele dia, quando chegaram em casa, a madame ficou com a cara amarrada.

As crianças logo foram dormir.

Vianna, com uma dúvida na cabeça (será que ela viu alguma coisa?), tentou aliviar a barra:
– Benzinho, vem dormir.

Ela respondeu com ar de poucos amigos:
– Eu tenho que costurar um pouco, fazer alguns consertos, daqui a pouco eu vou.

Passaram-se alguns minutos. Pensando bem, vários minutos. Vianna roncava à sono solto.

Repentinamente, ele sentiu suspender o lençol. Olhou e viu na mão da mulher um objeto cortante. As bolinhas da ceroula fugiram todas, antevendo o desastre.

Ele pensou:
– Que sonho horrível.

Esfregou os olhos. Viu a triste realidade. A tesoura brilhava contra a luz. Gaguejando, ainda não querendo acreditar, ele falou:

– O que você vai fazer?
– Vou dar uma aparada.

Ato contínuo, ela colocou a mão na perna do Vianna.

– Por quê?
– Porque precisa.

Vianna tremia, suava frio, era o fim. A patroa então arrematou:
– Vou cortar a unha do dedão do pé, que está furando as suas meias.

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