Aires, o Vivaldino

agosto de 2012 por

O bairro de Neves ficou “parado no tempo”, ou melhor, regrediu. Senão vejamos: há uns 35 anos, existiam dois cinemas que proporcionavam a alegria para a garotada nas tardes de domingo. As aventuras de Flash Gordon, Jim das Selvas, Tarzan e outros eram divididas em partes que passavam sempre aos domingos. Após a sessão eu tomava um caldo de cana e comia um pastel, pegava o bonde e voltava para casa todo feliz, já pensando no próximo domingo. O que iria acontecer com o herói da série?

Nas tardes de sábado tinha jogo no “Metal”. Hoje não existe mais o campo de futebol.

A única coisa que ainda se mantém em Neves é a feira livre aos domingos pela manhã.

Há alguns anos passados, no tempo bom, havia em Neves um armarinho, no qual se encontrava tudo: cueca samba canção, ceroula de bolinhas, calcinha lilás, fita roxa, camisa volta ao mundo, blusa de baloon, pregador de gravata, sandália havaiana etc.

O dono da lojinha atendia pelo apelido de Jorginho. Sim, apelido, pois seu nome de batismo era Miguel. Ninguém sabia o porquê do inusitado. Agora, cá prá nós, ele tinha mais cara de Jorginho do que de Miguel.

Trabalhava na loja um adolescente chamado Aires. Como todo jovem, ele se considerava a pessoa mais inteligente do mundo. Com ele nada podia acontecer. Ele se achava o dono da “cocada preta”. Ouvir a sabedoria dos mais velhos não fazia a sua cabeça. Ele dizia que velho era trapo. Deveria ser aposentado a um canto qualquer da vida.

Adolescente espertinho

Foto: Jeff Berman

Certa feita Jorginho chamou o Aires: – Menino pega este cheque e vai lá ao Banco do Brasil sacar para mim. Porém tenha cuidado, pois o valor é expressivo.

Cabe aqui um reparo, naquela época ainda existia Agência do Banco do Brasil em Neves, hoje não tem mais. Pobre Neves!

Mais tarde, naquele mesmo dia:

– Sr. Jorginho, cheguei. Tudo quase resolvido.

Todo feliz da vida, o Aires mostrou um papel ao dono da loja.

– Aires, isso é um bilhete da loteria!

– Sim, porém premiado!

– Eu quero é o dinheiro!

– Eu comprei este bilhete premiado, basta nós irmos a loteria receber. Eu dou o dinheiro do senhor e fico com o lucro para mim.

Já percebendo tudo, Jorginho assim falou:

– Ô rapaz, não vê que passaram um conto do vigário em você?

– Não, eu vi na lista de bilhetes que este estava premiado. Vamos à loteria receber. O velhinho que me vendeu era honesto, embora tivesse cara de bobo.

Jorginho teve que aumentar o preço das mercadorias da loja para tirar o prejuízo.

Aires, o “vivaldino”, até hoje não aceita que tenha feito papel de otário.

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