Rô FonsecaRô Fonseca
Cronista, poeta e compositor

Classe Média

Eles são uma típica família brasileira, que vive na corda bamba, cada hora por um motivo. A última foi uma mulher que deixou cair sua bolsa lá pros lados da Ásia.

Hoje eu conto a estória da família Rocha. Wanderley, Angela e o menino Rafael. Moradores do bairro da Covanca, eles são uma típica família brasileira, que vive na corda bamba, cada hora por um motivo: uma época foi a alta do chuchu que causou a crise, outra hora foi o confisco da poupança. Para simplificar, a última foi uma mulher que deixou cair sua bolsa lá pros lados da Ásia, nos chamados "Tigres Asiáticos". Agora eu entendo o porquê dos "Tigres de Bengala", só que a bengala sobrou para nós, brasileiros.

Mas voltemos aos meus amigos, e vamos encontrá-los em um sábado pela manhã. O menino Rafael adentra ao quarto do casal, todo animado:

— Alô, galera, vamos acordar.

Wanderley olha para a esposa.

— O que foi filho, está na hora de ir para o colégio?

— Que animação é essa? Angela, vamos senão chegaremos tarde ao trabalho, olha a hora.

Os dois pulam da cama rapidinho.

Rafael então fala:

Supermercado

— Anda logo, seus molengas!

Angela já antevia a bronca do seu chefe, quando deu um "estalo". Ela caminhou pensativa até a sala e voltou com "cara de poucos amigos":

— Seu moleque, hoje é sábado, nós não vamos trabalhar e nem você tem aula.

Wanderley então arrematou:

— Logo vi que era muita esmola essa animação toda para ir ao colégio.

— Pai, eu não falei nada de colégio.

— Então por que você veio acordar a gente às sete horas da madrugada de um sábado?

— O senhor esqueceu?

— Esqueceu o quê?

— Hoje é dia de ir ao supermercado.

— É, Wanderley, ele tem razão. – disse Angela.

— Mas ainda é muito cedo!

— Pai, gosto de chegar bem cedo, porque a pista está livre e posso acelerar à vontade o meu carro de compras, sem perigo de maus motoristas. "Acelera, Ayrton!"

— Menino, supermercado não é autódromo.

Angela:

— Deixa o menino para lá, já que ele nos acordou, vamos fazer a lista das compras.

Uma hora depois a família pega o velho Fusca, outrora símbolo da classe média. Turma que levou uma "pernada" do PROER, um "chega prá lá" do desemprego, uma bolsada de uma Coreana. Hoje a Classe Média já está sem o pão do dia a dia, sem a margarina, sem o leite materno da Mãe Pátria. Só sobrou o café cheio de "efes". É, a coisa tá preta!

O sorriso da dentadura amarelou.

O real é irreal.

O desemprego é um preço muito alto por um sonho.

Três horas depois, meus amigos estão na fila do caixa.

— Angela, o carrinho que o Rafael está empurrando é o mais cheio, você deixou ele com o mais pesado?

Supermercado

Rafael:

— Não pai, estas são as minhas compras.

— Suas compras?

— Sim, eu também tenho direitos! O senhor pensa que é só estudar?!

— Aliás, o seu estudo, se colocado num carrinho, não encheria nem até a metade do mesmo.

— Wanderley, não brigue com o menino! – Ponderou Angela, como todas as mães, sempre colocando "panos quentes" nos filhinhos.

Após passar os dois primeiros carros, Wanderley tentou questionar as compras do filho.

— Vamos cortar algumas coisas que não sejam essenciais para você.

Travou-se, então, seguinte diálogo:

— Para que comida para cachorro? Nós não temos cachorro.

— Um dia poderemos ter, o senhor não diz que devemos sempre pensar no futuro?!

— E este pano vermelho?

— É para mamãe fazer um saco bem grande para Papai Noel, assim ele vai poder trazer bastantes presentes para mim.

Já quase derrotado pelos argumentos do filho, o meu amigo fez a última tentativa:

— Filho, me explique para que este vidro de perfume feminino?

— É a minha arma secreta.

Angela pegou o perfume e disse:

— Por sinal é o perfume que eu uso.

— Fale, Rafael!

— Pai, quando eu tirar nota baixa no colégio, dou o perfume para minha mãe, aí ela me defende contra o senhor.

Foi o xeque mate.

Mais uma vez, cheque especial, filho especial, classe especial.

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