Rô FonsecaRô Fonseca
Cronista, poeta e compositor

Em Família

Um senhor bem vestido, corado, gordo – o único que não estava apavorado – se levanta e olha fixamente para o intruso. Foi como se se conhecessem há muito tempo.

No alto da colina, aquela construção, se destacava. Sim, lá está pintada de azul, um pouco abaixo do céu, também azul. Para alcançá-la é preciso subir uma pequena ladeira, margeada por uma vala de esgoto a céu aberto, um verdadeiro desleixo. A comunidade já solicitou às autoridades as obras necessárias para a ladeira. No entanto, esbarram na afirmativa por parte das autoridades, que dizem constar na prefeitura como rua asfaltada. Na política "não vale o que está escrito", alguém comeu o asfalto.

Por sua vez a comunidade é "descansada", como a maioria dos brasileiros. Pois se unissem-se poderiam em mutirão, manilhar a vala.

Caía a tarde, o manto da noite já se aproximava. O sino da igreja anunciava 18:00. O velho padre, um pouco abatido pelo passar do tempo e também por ter que se desdobrar entre duas comunidades e ser o responsável por duas igrejas. Os escalões superiores da igreja católica têm que atentar para os problemas que está acarretando a falta de padres.

A igreja se encontrava repleta, o velho pastor já ia iniciar a missa, quando, de repente para, e olha fixamente para a porta da igreja, e nada fala. Os fiéis percebem e todos ao mesmo tempo se viram em direção à porta do templo. Rostos de pavor, gritos misteriosos histéricos, faniquitos.

Homem gordo, vestido de terno

Indiferente ao medo espalhado, lá estava ele parado na porta, talvez na dúvida se entrasse ou não.

O padre se recupera da surpresa, bate palmas e tenta enxotá-lo. Na porta ele permanece imóvel, alheio ao padre.

Magro, esquelético, um pouco grande. Ele ameaça entrar na igreja.

Senhoras e senhoritas colocam os pés para cima dos bancos. A cor predominante nos rostos dos presentes era pálido-horror.

Um senhor bem vestido, corado, gordo – o único que não estava apavorado – se levanta, olha fixamente para o intruso, dizendo:

— Vá já para sua casa!

Incontinenti a ratazana abaixa a cabeça, dá meia volta e se retira. Foi como se se conhecessem há muito tempo.

A plateia homenageia o desconhecido com uma salva de palmas.

O pastor retoma o comando, e pergunta ao homem (herói) — O distinto cavalheiro não é de nossa comunidade, é?

— Não, eu não sou. Eu vim participar da festa de 50 anos de um primo meu. Eu sou um político antigo.

O padre retoma a palavra:

— Obrigado, não precisa explicar mais nada. Rezemos, meu povo, por este Brasil surrealista.

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