Rô FonsecaRô Fonseca
Cronista, poeta e compositor

Sonhar é Preciso

Não sei o porque, mas o menino se identificou com o Garrincha. (...) Nascia ali uma paixão pela Seleção.

Aquele menino magro, sem dentes da frente, cabelo raspado, para evitar piolhos, pele negra, não sabia o porque daqueles homens reunidos na barbearia do Sr. Belarmino. Eram bem umas dez pessoas, quietas, só o velho rádio Phillips emitia alguns sons.

A cena ocorreu no longínquo ano de 1958. Ao se aproximar, o menino, então com dez anos de idade, percebeu que era uma narração de um jogo do Brasil na Copa.

Garrincha

O locutor Oduvaldo Cozzi, falava das maravilhas que um tal de Garrincha fazia em campo, entortando os homens do time da Suécia. O rádio também parecia se emocionar, pois de vez em quando a voz sumia, de outra feita aumentava, sem ninguém mexer nele. O pessoal torcia desbragadamente: unhas eram comidas com voracidade, caretas as mais variadas, promessas de todas as qualidades, nomes feios, os mais variados, conhecidos e desconhecidos. Ao final do jogo, aquela alegria, festa geral. O menino até provou um pouco do vinho do Porto do Sr. Belarmino. Não sei o porque, mas o menino se identificou com o Garrincha.

Meses depois, no pátio da igreja do Ponto Cem Réis de Santana, em Niterói, o menino assistia a uma sessão de cinema ao ar livre: O Gordo e o Magro, Abott e Costelo, Buck Roger, etc. Quando começou o Jornal da Tela, lá estava o seu ídolo, Garrincha, justamente no jogo final da Copa. Que alegria. Pareciam passes de balé, e os gringos cintura "dura" iam caindo. O menino pobre quase morria de tanto rir, junto com a totalidade da platéia.

Nascia ali uma paixão pela Seleção.

Cinqüenta anos depois, o menino de outrora, já com cabelos brancos, sonha passear sob o Arco do Triunfo, tendo perto dali, seu amigo sentado à margem do rio Sena, com seu Mainá ao lado, banhando uma minhoca.

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