Fala, Madureira

fevereiro de 2013 por

Futebol - Vasco e Flamengo

Foto: Ide Gomes

Madureira é um grande polo de arrecadação de impostos para o Município. Em Madureira, o samba se aprende na escola, já que lá existem duas Escolas de Samba: Portela e Império Serrano, sendo que atualmente existe as Escolas Mirins, que são alunos de samba, futuros mestres.

Além de sua importância econômica e carnavalesca, foi em Madureira que surgiu Mário, mais conhecido por Marronzinho, nascido e criado ao pé da Serrinha. Não era água morna, mas era esperto.

Como bom malandro, ele trabalhava de segunda a sexta como servente de uma empresa aérea. Bem falante e prestativo, Marronzinho se dava bem em todas as paradas. Sabia viver.

Na sua época de rapaz, Marronzinho frequentava muito o “Rosetá”, que era um sobrado em Madureira. O “Rosetá” era um clube, frequentado pela velhice desamparada, inclusive mulheres que há muito tempo recebiam pensão do INPS, sim naquele tempo o nome era esse. Ele dizia que tinha um coração mole e não podia ver uma vovozinha necessitada que ia em seu auxilio. Existiam três tipos de ambientes no clube: com muita luz, pouca luz e sem luz ou “pega pra capar”, também conhecido como “vale tudo”. É isso mesmo, é no último ambiente que Marronzinho se enquadrava. Ele “descadeirava” umas cinco idosas por noite.

Muitas vezes ele namorava no “Cai duro da linha do trem”, um olho na mina outro no trem, que podia chegar e acabar com a festa. Pingente da Central, muitas vezes driblou o “Beline”, um poste que ficava junto à via férrea, e, em diversas ocasiões, viu colegas seus ficarem na dura marcação.

Certa feita, no carnaval, lá estava meu amigo na Av. Presidente Vargas, trepado num caixote de frutas, que ele achou ao acaso. Era dia de desfile das Escolas de Samba. Como bom carioca, ele não podia perder o espetáculo que era feito pelo povo para o povo, não se cobrava ingresso a ninguém. Tempo bom! Mais uma Escola se preparava para iniciar o desfile, quando o serviço de alto-falantes anuncia a morte do grande ARI BARROSO.

Eis que surge a Escola. A voz do puxador já começava a ser ouvida. Era Abílio Martins com aquele vozeirão, cantando o samba-enredo “Aquarela Brasileira” de Silas de Oliveira. Era a Escola de Mano Décio, de Mestre Fuleiro, de Dona Ivone Lara. Era o verde e branco. Enchendo a avenida. Era o Império emocionando a todos. Marronzinho, maravilhado, perdeu o equilíbrio e caiu do caixote.

De outra feita, num domingo pela manhã, meu amigo estava tomando um pau-pereira no boteco do “Nena”, quando resolveu intervir na discussão que havia sobre o jogo que seria realizado à tarde entre Vasco e Flamengo no Maracanã.

– Sou Vasco e dou dois gols, aposto uma dúzia de cervejas, para tomar depois do jogo.

Imediatamente um freguês, torcedor do Flamengo, se manifestou:

– Eu aceito a aposta e não quero o empate.

Marronzinho retrucou:

– Já que é assim, só vale gol de Célio.

Célio era um centroavante do Vasco que tinha um chute muito forte. Empolgado com a aposta, ele resolveu ir ao Maracanã ver o jogo. Colocou a velha carteira no bolso de trás da calça Lee surrada, e foi à luta.

Termina o jogo Vasco 2 x 0, dois gols de Célio.

Marronzinho era só alegria. Na saída das arquibancadas as torcidas se encontram. A torcida vitoriosa começa a gozar a torcida derrotada.

Naquele empurra-empurra dois homens esbarram em Marronzinho por trás e pedem desculpas. Marronzinho diz que não foi nada, que tudo é festa.

– Quem deve se desculpar, “gente boa”, é o Célio que fez dois gols!

No boteco do “Nena”, Marronzinho era só falação.

– Hoje eu tive três alegrias; a primeira são estas cervejas geladas, que eu ganhei mole, mole. A segunda foi a vitória do Vasco; a terceira, deixa pra lá. Deu uma risada marota e tomou um bom gole da “loura suada” (cerveja gelada).

Enquanto isso, numa rua qualquer nas imediações do Maracanã.

– Aquele torcedor do Vasco é otário mesmo.

– É, nós “batemos” a carteira dele e ele ainda pediu desculpas.

– abre a carteira logo, vamos dividir a “grana” e tomar uma cerveja, que já estou com o “bico seco”!

Mais para surpresa dos dois ladrões, na carteira não tinha nada, ou melhor, somente um papel com alguns dizeres, que com muita dificuldade um dos ladrões conseguiu ler.

– V+A= VAI, T+R+A=TRA, B+A=BA, L+H+A+R= LHAR, V+A=VA, G+A=GA, B+U+N=BUN, D+O=DO.

– VAI TRABALHAR VAGABUNDO!

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