Fim de Linha

setembro de 2010 por

ou contar hoje as peripécias do meu amigo Bragança.

Morador do bairro do Coelho, ele trabalhava em um Banco na agência de Alcântara.

Certa feita, ele recebeu um convite para um casamento no Município de Rio Bonito, terra na qual o meu amigo Evaldo leciona com brilhantismo.

Mas voltemos ao Bragança. Sábado pela manhã, dia da festa, ele pegou a senha para o banheiro, pois meu amigo morava em uma casa de cômodos alugados a várias pessoas. Meu amigo há pouco havia chegado do interior e tinha pouco tempo de trabalho, a cabeça de porco foi o lugar onde a grana que ele havia trazido possibilitava morar.

Terno Branco

Foto: The Next Web

O casamento era de um colega que tinha sido transferido para a agência de Rio Bonito.

Depois de esperar pacientemente a sua vez, pois a fila era enorme, ele tomou o seu banho frio, usou o sabão de coco de uso comum a todos.

Penteou o cabelo, colocou fixador (gumex), para manter o topete à Elvis Presley. Vestiu a velha camisa volta ao mundo, desarquivou do fundo da mala o velho completo branco, o primeiro e único terno que seu corpo havia podido envergar.

Não esqueceu de colocar aquela cueca samba-canção alvinha, e uma meia soquete branca, que havia comprado um dia antes.

Após tomar um segundo banho com a água velva de William, ele saiu à rua. Sentou-se em uma cadeira de engraxate e solicitou ao moleque um brilho no pisante, preto, que era o único detalhe que contrabalançava aquela brancura total.

Ele ainda parou em uma esquina na qual um aposentado – que por ganhar uma pensão miserável se viu obrigado a ganhar algum – vendia churrasquinho na rua. Meu amigo “agasalhou” um churrasquinho de “filé-miau” – hoje em dia os gatos não têm sossego – tomou um refrigerante qualquer e foi à luta.

Pegou o ônibus, todo garboso. Sentou-se no meio do coletivo, ao lado de uma jóia-joiosa, bela menina. Pensou com seus botões: hoje o sábado vai ser uma festa total. Deus está do meu lado.

Sentia-se um banqueiro, rico e protegido pelos governantes. Por momentos, deixava de ser um explorado bancário. Já se via entrando na igreja com aquela flor de menina.

O ônibus para em Tanguá, por sinal aonde existe uma igrejinha no alto, “tomando conta” da cidade e abençoando seus moradores. Arte moderna, linda!

Adentram o coletivo algumas pessoas, entre elas um trabalhador rural. Não sei se revoltado com a vida miserável que levava, ou por ser sábado dia de festa, ele já estava pra lá de Curuzu. Havia tomado todas e mais algumas.

Colocou-se em pé ao lado de Bragança. Que continuava sonhando.

De repente um balanço mais brusco, um buraco vadio na estrada, por sinal abandonada pelas autoridades. O sem terra chama raul, leva as mãos à boca, mas não consegue segurar o vômito.

O terno de Bragança fica maculado. A alma também. A passageira do lado olha com nojo. Bragança toca a cigarra e desce. Do ônibus e do sonho.

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