Foto Mágica

janeiro de 2011 por

Hoje eu conto a estória do meu amigo “Azulão“. Morador do bairro do Mutuá, ele estava na pior. Havia percorrido uma longa fila de empregos, estava cheio de “ex” em sua folha profissional: ex-funcionário público, ex-enxugador de gelo, ex-empacotador de fumaça, ex-candidato a político, ex-camelô, ex-corredor da São Silvestre (aliás, neste ele ficou depois do último, nem conseguiu concluir a prova). A sua última profissão foi de pedinte, ex-mendigo.

No fundo, ele queria ser marido de mulher rica, porém a concorrência com a juventude era difícil.

Mexendo nas quinquilharias do seu falecido pai, achou uma velha máquina fotográfica. Pensou com seus botões, “é isso, uma coisa nova”.

Lembrou das poucas orientações dadas pelo seu pai, quando ainda em vida, e foi `a luta.

Ocupou a sala da casa, alquebrada pelo tempo, instalando aí o seu “studio” Fotográfico.

Ele pensava que seria fácil, porém ninguém comparecia para ser fotografado pelo meu amigo.

Em contrapartida o studio do fotógrafo mais competente de São Gonçalo, VITAL XAVIER, vivia cheio, graças à sua capacidade e simpatia no atendimento ao público gonçalense. Um forte abraço no número UM.

Quando entrava uma mosca no studio do “Azulão”, quebrando o silêncio, era uma festa.

Chovia muito naquele dia. Chuva torrencial. Eis que entra no studio uma senhora, fugindo da chuva.

– O que a senhora deseja? – perguntou, solícito o meu amigo, antevendo a quebra do jejum. Ela seria sua primeira cliente.

– Aqui é o que? – indagou a senhora.

Aborrecido com a pergunta, “Azulão”respondeu:

– Um Studio Fotográfico

– Eu não sabia, mas já que estou aqui, vamos tirar umas fotos enquanto a chuva não passa.

“Azulão” foi logo dizendo o preço:

– Meia dúzia de fotos custam dez reais.

– Muito caro!

Já na bronca, ele arrematou:

– Se a senhora não vai fotografar, por favor me dê licença, que eu vou fechar o estabelecimento.

A senhora olhou a chuva lá fora e entre a chuva e as fotos preferiu as fotos.

Três dias se passaram depois daquele acontecimento. Já anoitecia. Mais uma vez, nenhuma viva alma havia entrado na loja. Quando aconteceu um zum zum zum na rua.

Foto magica

Foto: Johnathan Gooch

– Pega, pega.

Entra no Studio uma menina na flor da adolescência.

– A menina vai tirar retrato?

Assustada a menina diz:

– Eu quero é me esconder.

“Azulão” não perdoa.

– Então saia daqui.

A menina para e reflete.

– Mais é claro moço, quero muitos retratos.

Uma semana depois a senhora veio buscar os retratos.

Voltando, no dia seguinte, reclamou:

– Olha, meus parentes acham que estas fotos não são minhas.

“Azulão” olhou as fotos e viu que eram da menina. Porém, não perdeu a pose e “engatou uma segunda”:

– Minha senhora, eu vou revelar um segredo, minhas lentes são mágicas, elas podem retroceder no tempo e também fotografar o interior das pessoas.

A senhora saiu toda alegre, a vaidade feminina estava no auge.

E agora, quando a menina viesse buscar as suas fotos?

Ambas tinham olhos azuis e peles claras, com um pouco de boa vontade até se pareciam.

O papo foi o mesmo.

– Minhas lentes são mágicas, conseguem captar a sua fisionomia daqui a 20 anos.

Ela saiu toda alegre.

Transcorrera um mês, o Studio havia mudado. Na fachada, um letreiro luminoso “FOTO MÁGICA”. Nos cartões de visita vinha impresso: “Azulão”, o fotógrafo do passado e do futuro.

Ele se considerava esperto, como a maioria dos brasileiros. Depois querem reclamar da sorte.

Já agora ele cobrava vinte reais pelas fotos.

Certa feita, uma senhora veio buscar suas fotos. Como era de costume, ele, às vezes, tirava fotos de revistas estrangeiras e as entregava às clientes. Só que ele não entendia nada do que estava escrito, só aproveitava as fotos.

Por coincidência, o filho desta senhora era marinheiro e havia chegado da Europa.

Quando ela, toda boba, mostrou o retrato, o filho pegou uma revista que trouxera. E lá estava a foto que ela lhe mostrara: era a mesma de um transformista brasileiro que se achava fazendo um show de sucesso no exterior.

“Azulão”, esperto por demais, agora é o fotógrafo titular do presídio.

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