Música, um Santo Remédio

novembro de 2011 por

Essa conversa se passou em um consultório médico no centro do Rio de Janeiro, no mês de julho de 1996.

Sala ampla, médico sentado em uma poltrona confortável. Paciente meio deitado, meio sentado. Vamos ao diálogo:

Guitarra ou pílulas?

Foto: Abdallah Aberouch

Médico – Em que posso servi-lo?
Paciente – Eu estou com um problema.
Médico – Todos têm problemas.
Paciente – Até o senhor?
Médico – Claro! Eu também sou brasileiro. Antigo classe média.
Paciente – Não é mais?
Médico – Com o advento do Real, a coisa ficou muito ruim.
Paciente – Mas o governo diz que o povo passou a consumir em maior escala.
Médico – Só que a classe média está pagando a conta.
Paciente – Como assim?
Médico – Nós estamos pendurados até o pescoço.
Paciente – Tanto assim?
Médico – Se por acaso, só por hipótese, o governo baixasse uma resolução proibindo o uso do cartão de crédito; extinguisse o cheque especial; mandasse prender os agiotas.
Paciente – E aí?
Médico – Seria a implosão do sistema financeiro do país.
Paciente – A coisa está tão feia assim?
Médico – Pior que salário de professor.
Paciente – Ainda bem que eu não tenho esse problema.
Médico – Aliás, o senhor não disse qual é o seu caso.
Paciente – É o seguinte: tem uma música na minha cabeça.
Médico – Música é uma coisa ótima.
Paciente – Acontece que ela não me deixa. Aonde eu vou, ela vai junto.
Médico – É persistente?
Paciente – O único momento que ela me abandona é quando eu durmo. Porém, ao acordar, ela reassume o seu posto.
Médico – (pensativo) É…
Paciente – (apreensivo) É grave?
Médico – Já tenho um diagnóstico.
Paciente – Será que eu fui músico em outra encarnação?
Médico – A minha conclusão, é que você nunca foi músico.
Paciente – Como o senhor tem tanta certeza?
Médico – O músico sente a música brotar no coração e depois se alastrar pelo corpo inteiro. Ele viaja na melodia, flutua na harmonia, se acha na poesia.
Paciente – E a minha doença?
Médico – É simples, aprenda a tocar um instrumento.

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