O Barbeiro

agosto de 2009 por

Falo aqui neste espaço sobre uma laboriosa categoria da qual o meu amigo Dudu faz parte como um “mui digno” representante dos barbeiros. Eu diria que os salões de barbeiros na realidade são “as esquinas” dentro de quatro paredes. Normalmente, os clientes e os profissionais criam um vinculo de difícil separação, haja vista que muitas vezes as pessoas se mudam, porém sempre voltam ao velho amigo para cuidar dos ralos cabelos que sobraram dos deixados ao longo do caminho da vida. É uma fidelidade “canina”. O barbeiro é quem mais influencia na escolha do time de futebol: invariavelmente em um salão que se presa, tem sempre um quadro do time do coração.

O meu amigo “Picolé”, por exemplo, passou a torcer pelo América graças a um barbeiro (Alias, vocês viram o América por aí? Acho que vou procurá-lo na coluna dos “Achados e Perdidos”. Ah, os dirigentes!).

barbeiro

Foto: Riza Nugraha

Falando de barbeiros, lembrei do meu amigo Walmor, que na mocidade foi um excelente profissional.

Alias, dizem as más línguas, que foi ele o inventor do corte a zero, ou melhor o corte “bola de bilhar”! Como foi, eu te conto.

Dizem que ele estava nos primórdios da profissão, era o seu primeiro freguês.

– Como vai ser?
– Eu quero à “Príncipe Danilo”

Danilo era um jogador do Vasco, o fino da bola e muito elegante. O seu corte de cabelo era imitado por todos. Os meninos do meio de campo de hoje, os chamados “cabeças de ar”, não tinham capacidade sequer para lustrar as chuteiras do “príncipe”. Pobre futebol de hoje!

O meu amigo no afã de agradar, sempre que parecia que havia terminado, dava uma sugestão ao freguês:

– Acho que posso retocar do lado esquerdo.
– Tudo bem.
– Vou caprichar mais o “pé”.
– Ok.
– Vou tirar mais um pouquinho do lado direito.

Já meio cochilando, o freguês disse:
– Estou em suas mãos.

De retoque em retoque, de acerto em acerto, o freguês acabou ficando careca.

Quando ele acordou levou um susto:
– Cadê o meu cabelo?

Assustado (não esqueçam que era seu primeiro freguês, muito embora ele houvesse praticado na família toda lá no bairro do Pita), meu amigo Walmor tentou inventar argumentos para convencê-lo:

Barbeiro e cliente

Foto: Elvert Barnes

– Isso é um corte ultramoderno.
– Mas ninguém usa. – retrucou o freguês.
– As autoridades dizem que tem uma epidemia de piolho a caminho.
– Você acha que eu tenho piolho?
– Não, não, mas você só vai precisar cortar o cabelo daqui a três meses.
– Olha, se você não fosse meu amigo…
– Eu sei, por isso estou antecipando para você um corte que vai ser moda daqui a uns 25 anos.

A gargalhada no recinto foi geral, todos os presentes, clientes e os velhos profissionais riram da saída inventada pelo jovem aprendiz. Até o cliente colocou um sorriso naquele rosto que se achava fechado para a alegria.

Hoje, ao ver os jovem com a cabeça raspada, dizendo que é uma moda que veio dos Estados Unidos, através da imitação dos astros do basquete da NBA, como Michael JordanShaquille O’Neil e seus companheiros, meu amigo lembra que há muito tempo atrás ele foi o precursor da moda, quem diria.

É, talvez meu amigo Walmor fosse um barbeiro muito avançado para o seu tempo…

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