O Jogo de Buraco

Março de 2015 por

Aconteceu há uns quarenta anos.

Eles são irmãos, o Francisco e o Augusto, e moravam no mesmo conjunto residencial, em blocos diferentes. Ambos recém-casados. E como a maioria dos recém-casados eles também tinham muitas dívidas para pagar. Em face dessa situação, as saídas nos fins de semana para ir ao cinema, teatro e até ao futebol, que eles iam constantemente antes de casar, foram substituídas por um único programa que não ocasionava despesas nos orçamentos das famílias.

O programa consistia na visita de um casal ao outro todas as sextas-feiras, revezando de casa, ou melhor, de apartamento. Nas visitas, acontecia aquele papo-furado, depois uma partida de Buraco. Normalmente os homens contra as mulheres, a tradicional disputa.

Naquela sexta-feira foi dia da família do Augusto ir para a casa do Francisco, e lá estavam todos reunidos conversando animadamente, fazendo a pré-hora para o jogo sensacional homens versus mulheres.

Augusto então perguntou ao irmão:

– Mano, quando é que eu vou ganhar um sobrinho?
– Não tão cedo. Eu estou jogando na base da tabelinha.
– Cuidado que esse negócio de tabelinha às vezes falha.
– A minha não falha, ela é igual a Pelé/Coutinho no tempo deles, infalível.
– E você, Augusto? – Perguntou o Francisco.
– Nem pensar, minha esposa usa um anticoncepcional infalível.
– Olha que às vezes pode estar com defeito.
– Só há uma possibilidade de não funcionar, é ela se esquecer de tomar o remédio. E eu estou como os escoteiros, “sempre alerta”.
– Então não vai ser agora que nossos pais serão avós.
– Só milagre.

Começa o jogo.

O Francisco lembrou que tinha achado uma garrafa de “Dimple” quando estava arrumando alguns presentes do seu casamento. Perguntou se eles queriam tomar um pouco.

Já passava algumas horas da meia-noite quando o jogo terminou com a vitória, esmagadora, dos homens por 3.000 a 1.180.

Realmente os homens tiveram uma atuação excelente, em particular o Augusto com uma sorte incrível, tendo inclusive feito uma canastra de Ás a Ás (mil pontos).

– É hoje foi meu dia de sorte, ao chegar a casa vou completar a sorte!

E lá se foi o Augusto cheio de sorte deixando para trás uma garrafa vazia.

Dois meses depois daquela data, no apartamento do Augusto, este com cara de preocupado.

Chega para o irmão e dá a notícia de que ele vai ser papai.

Surpreso Francisco pergunta:

– Como pode, se você disse que o remédio era infalível?
– Só que minha mulher esqueceu-se de tomar o remédio um dia.
– Mas que dia?
– Aquele dia que eu estava com sorte no jogo de buraco.
– Eu lembro.
– É que na realidade eu estava com azar no buraco.

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