O Pangaré

por agosto/2010Crônicas1 Comentário

Eu tenho um amigo que tem duas paixões na vida: uma é o Flamengo, a outra é corrida de cavalos. Ele fez umas economias e conseguiu adquirir um cavalo de corrida.

Era costume do meu amigo levar seus parentes e amigos ao Jóquei Clube durante a semana, só para admirar o belo animal.

De fato o animal era importante, tinha uma bela estampa. Quem o via, dizia que se tratava de um verdadeiro campeão.

O dono cheio de orgulho, falava sobre os hábitos do cavalo: acordava às 5h, fazia um treino leve, comia alfafa, ingeria vitaminas, tomava banho, depois tinha seu corpo escovado. Ressaltava que seus banhos eram sempre com xampus e sabonetes importados, após o qual se colocava um pouquinho de perfume francês.

O nome do animal era Sir Labareda, filho legitimo de um grande campeão.

Certa feita, o proprietário do animal estava todo emocionado. Finalmente o Sir Labareda iria correr. Ele estava inscrito no oitavo páreo de uma programação dominical.

Na segunda-feira, após a corrida, o meu amigo estava com uma cara de segunda-feira.

cavalo

Foto: Sam Wilson

A pergunta era a mesma:

– E o Sir Labareda, como foi?
– Não foi. Respondia meu amigo, com cara de poucos amigos.
– Como assim?

Indignado meu amigo, esclareceu:

– Aquele filho de uma égua, não saiu do lugar. Parado estava na largada, parado continuou. Segundo o veterinário, ele teve uma crise nervosa, ou melhor, uma emoção muito forte pela sua estreia, não conseguindo “arrancar”.

Tempos depois, meu amigo me disse que ele participaria de um novo páreo, em uma segunda-feira à noite. Seriam oito cavalos inscritos. Como Sir Labareda tem cara de boêmio e o páreo seria à noite, talvez o resultado fosse melhor que o anterior.

Na terça-feira, posterior à corrida, meu amigo estava novamente furioso:

– Aquele “burro” ficou em quinto lugar.

Cavalo

Foto: Trey Ratcliff

Exclamei, perplexo:

– Amigo, eu não te entendo, dessa vez ele conseguiu um lugar honroso! Quinto lugar!
– Honroso nada, ele foi o último.
– Como? – Indaguei.
-Três cavalos foram retirados do páreo, antes de começar a corrida.

Sir Labareda apagou-se, se transformou em cinza, foi vendido para uma fábrica de Nova Iguaçu.

Sentados em uma mesa num boteco de São Gonçalo, tomando uma cerveja, eu e meu amigo lembrávamos do Sir Labareda.

Quando eu pedi ao garçom carne de sol, meu amigo se recusou a comer o tira-gosto, com receio que fosse uma fatia do seu “Pangaré”.

1 Comentário

  1. ANDRE

    Lindo

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos