O Riso

fevereiro de 2012 por

A estória de hoje é verídica e me foi contada pela amiga Lóla.

A empresa onde trabalhavam estava com um “Programa de Demissões”. Há meio ano, mais ou menos, muitos colegas, a maioria injustamente, haviam sido demitidos. O clima era de apreensão e constrangimento. Os que restavam, ao se cruzarem nos corredores, procuravam mostrar indiferença com o colega. Um cumprimento frio: “nada de intimidade”! Qualquer conversa mais longa era fofoca… Ser visto junto nem pensar! Era assim que queria a direção, era assim que talvez pudessem conservar o emprego.

Miriam e Lóla moravam em São Gonçalo, amigas e companheiras de trabalho, passavam por essa situação dentro da empresa. Procuravam se ignorar todas as vezes que se encontravam. No máximo, um frio “oi”, era o que conseguiam dizer-se.

Miriam, costumava ir e voltar de ônibus pela Ponte Rio-Niterói; Lóla, como morava mais perto das barcas, preferia usar esse meio de transporte para ir trabalhar. Assim raramente se encontravam na ida ou volta do trabalho. Naquele final de tarde, já cansada dos constantes congestionamentos da Ponte, Miriam resolvera voltar para casa de barcas e ônibus.

Sorriso interrompido

Foto: Susanna A

Tomou as barcas na Praça XV, e sozinha meditava na situação de tristeza e angústia pela qual ela e seus colegas passavam. Parecia que os bons momentos de alegria e cordialidade que tinham vivido nesses longos anos de convívio fraterno, haviam desaparecido e talvez não voltassem nunca mais. A alegria de trabalhar que a motivara sempre, não era mais a mesma. O local de trabalho, antes tão acolhedor, parecia um cemitério. Não se via mais uma conversa descontraída  um “bate-papo” na hora do cafezinho, pois esse nem mais existia no “Programa de Contenção de Despesas”. Realmente, nem dava vontade de sair de casa para ir trabalhar…

Meditando sobre tudo isso chegou à Praça Araribóia e dirigiu-se para o ponto do ônibus 143 – São Gonçalo. Tomou o lugar numa janela e distraída aguardava o ônibus sair. Uma criança começou a chorar no banco da frente e ela procurava saber o motivo de tanto choro.

Alguém sentou-se ao seu lado, mas ela atenta em descobrir o porquê do choro da criança, nem se ligou no fato. O ônibus partiu, e só então ela voltou o rosto para o lado, e por coincidência a pessoa que sentara fizera o mesmo gesto, o mesmo movimento. Ao se cruzarem os olhares, as duas soltaram um grande, enorme, estridente “UI”. Todos os passageiros olharam na direção do banco onde estavam sentadas as duas pessoas. Era ninguém menos que sua amiga Lóla!!! O susto de ambas foi enorme.

Daí ao riso foi uma fração de segundo. Riso alto e contínuo. Daqueles que não se consegue parar. Até a criança, esquecendo o choro, as olhava espantada. Ninguém entendia nada. E assim lá se foram as duas rindo. O riso do desafogo  o riso da liberdade, o riso descontraído de quem, por viver assustado, amedrontado e cheio de angústias, até se esquecera da alegria, da amizade, da camaradagem. Estavam fora da empresa! Podiam rir… rir…

Lóla saltou na Venda da Cruz, chegou em casa rindo. Míriam foi até o Zé Garoto ainda rindo.

No ônibus todos pasmos: “Devem ser malucas!”, pensou o trocador!

A criança desceu no Rodo de São Gonçalo, espantada, com um ar preocupado e pensando consigo:

– Que Mundo louco me espera!!!

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