Os Fugitivos

janeiro de 2010 por

Falo aqui neste espaço da história do meu amigo Josias.

Casado com dona Regina. Ele funcionário público estadual. Ela professora também estadual. A família se completa com os dois filhos, Fernando com 16 anos e Jussara com 18 anos.

Eles moravam em um conjunto da Cehab, no bairro da Vila Lage em NevesSão GonçaloRio de Janeiro.

Muito religioso, o casal agradecia à Deus todos os dias por possuírem aquele teto e também o velho fusca ano 1970.

Há alguns anos atrás, eles acalentavam o sonho de comprar uma casa com quintal, talvez em Maricá, coqueluche da classe média, já que muitas pessoas se deslocaram para lá com o intuito de conseguir uma melhor condição de moradia.

Era pensamento também, comprar um carro mais novo e maior, a fim de dar um conforto melhor para a família.

No entanto, os tempos mudaram e a “barra” começou a pesar. Há dois anos Josias e Regina não recebiam aumento.

Os funcionários públicos passaram a ser os vilões da economia. Se chove, se faz sol, se a cachacinha do dia-a-dia “não caiu bem”, tudo é jogado no “ombro” dos servidores. Inimigos públicos número 1. Os piores facínoras do Brasil.

Enquanto isso, o ensino público é relegado a último plano.

Os pais são obrigados a destinarem uma considerável parte do parco orçamento familiar para os colégios particulares, se quiserem que os seus filhos tenham um aprendizado compatível com os demais jovens que disputarão uma vaga nas faculdades.

Diariamente os meios de comunicação bombardeiam os jovens, principalmente com as mensagens de consumo desenfreado.

De um lado os filhos pedem, chegando às vezes até a exigir.

Do outro, os pais querem dar, porém não podem.

Roupas de etiquetas, tênis de marcas, show com os artistas da moda. Pai sofre!

Certa manhã, vamos encontrar o meu amigo conversando com a sua esposa na hora do café:

– Querida cadê as crianças?
– Ainda não chegaram.
– Como assim?
– Você esquece que hoje é domingo?
– Só que já são 9:00 horas.

A porta é aberta e entra Jussara.

– Filha, aonde você estava até essa hora?
– Estava por aí, nos bailes fanques da vida.
– Eu e sua mãe ficamos preocupados. Quem estava contigo?
– Meu gato do momento, o “Tic”.
– Filha, você está com 18 anos, foi reprovada no colégio. Abandonou o curso de inglês. O que será da sua vida?
– Corta essa, coroa! Tá tudo bem! Eu tenho “Apê” para morar e quando você e a velha morrerem, eu vou ser a dona do “cafofo”.
– Você está esquecendo do seu irmão.
– Eu e ele já decidimos. Ele vai ficar com o “carango”.
– Sendo assim eu e sua mãe estamos mortos, só faltando enterrar.

A campainha toca, Regina abre a porta, Fernando entra.

– O que houve, filho?
– Esqueci a chave.

O Josias pergunta.

– Você saiu de carro, e parece que bebeu?
– Pai, eu tenho 16 anos, o senhor esqueceu?
– Filho você não tem habilitação.
– Pra que habilitação, se eu tenho mais habilidade no volante que o senhor? Aliás, eu acho que pessoas depois de 45 anos não deveriam dirigir, pois já estão velhos.

Uma semana depois, sobre a mesa da cozinha, um lacônico bilhete, escrito em um pedaço de papel higiênico: “NÃO AGUENTAMOS MAIS. PARTIMOS. BEIJOS”.

Naquela mesma manhã, em uma praia deserta:

– Por que não fizemos isso antes?
– Sabe Regina, eu te amo.

De mãos dadas, esquecidos de tudo, eles continuam a caminhar pela areia da praia de Miaipi, paraíso perdido, no Espírito Santo.

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