Professor, o Eterno Roubado

janeiro de 2009 por

Hoje eu falo da classe mais vilipendiada do país, através da história da minha amiga Maria, professora primária, que dedicou grande parte da sua vida ao ensino, com muito amor e competência, embora abandonada pelo poder público.

Quando jovem, lá se vão 24 anos, a menina moça prestou concurso para ingressar na carreira do magistério estadual, depois de estudar muito no Instituto Clélia Nanci. Ela conseguiu ser aprovada, mas de início teve que trabalhar em Magé. Era uma luta, cada dia uma aventura para chegar ao local do trabalho, mas com muita dedicação ela superou esse período.

Centro da atenção da família, pois era uma professora, orgulho de todos, bons tempos. Nessa época professora tinha status. Na atualidade, é uma profissão pequena, sem importância, visto pela ótica dos governantes. Aliás, eles, governantes, fazem tudo para que haja a extinção por completo da categoria. O que seria uma grande realização política.

Em meados de dezembro a minha amiga saiu lá do seu bairro de Santa Isabel e veio ao Banerj, que alguns teimam em chamar de Banco, tentar receber o seu pagamento do mês de novembro. Calma, gentil leitor, não houve erro de impressão, é isso mesmo, no Estado o mês tem 45 dias, às vezes 50. O pagamento feito em dezembro refere-se a novembro.

A mestra chegou a agência bancária pensando em receber os seus proventos de R$350,00. Uma fortuna, quase igual ao salário de um deputado, símbolo nacional. Para sua surpresa o seu pagamento seria no outro dia. Então, já que estava ali, resolveu pegar um talão de cheques.

Ela resolveu dar uma voltinha pelas lojas do centro de São Gonçalo, a fim de verificar o que poderia comprar com o seu parco salário, afinal o Natal estava próximo.

Em uma das lojas de eletrodomésticos, ela comprou um liquidificador, mas como não podia pagar o valor a vista, teve que financiar em 6 vezes, sendo a primeira prestação para o mês seguinte e tendo que pagar assim o preço de dois liquidificadores.

Não tinha outra alternativa, mais uma vez era ludibriada.

Numa loja de tecidos, enquanto examinava as fazendas com pequenos defeitos, colocou inadvertidamente a sua bolsa sobre um balcão.

Foto: Wonderlane

Foto: Wonderlane

– Minha senhora, olha sua bolsa!

Era um vendedor chamando a sua atenção.

– Minha bolsa!

Já era tarde, uma outra mulher, estava na porta da loja, saindo com sua bolsa.

Ela gritou.

– Pega ladrão! Pega ladrão!

Foi uma correria geral. Alguns metros adiante a ladra foi agarrada. Só que ela já havia passado a bolsa da minha amiga para um outro membro da quadrilha.

Lá se foram os documentos da mestra, o dinheiro da passagem e o talão de cheques novinho.

Como passava das l8 horas, ela não podia sustar os cheques.

No outro dia, com o coração na mão, ela foi a primeira cliente a entrar no Banco.

Para sua alegria os seus vencimentos estavam intactos.

Falou com o gerente e sustou os cheques, pagou R$ 8,00 por cheque, no total de R$ 160,00. Duplamente penalizada, sacou o restante (R$190,00), passou na imobiliária e pagou R$100,00 pelo aluguel da casa humilde onde mora.

Foi para casa pensando o que fazer com os R$90,00 restantes, que não daria para cobrir as demais despesas.

Ao chegar em casa havia um recado da vizinha. Alguém havia encontrado os seus documentos, e como tinha o número do telefone da vizinha, havia ligado marcando um encontro, para devolvê-los.

Ainda bem que existe uma alma boa, assim pensava a professora.

Ao chegar ao local do encontro, um “Pé Sujo” entregue às moscas, lá estava aquele representante da malandragem gonçalense. Na mesa encardida jaziam mortas uma dúzia de cervejas.

– Bom dia!
– A senhora é a professora Maria?
– Sim, e o senhor?
– Eu sou o professor Vandeco, formado na escola da vida.
– Mas vamos ao que interessa, o senhor tem os meus documentos?
– Calma! A senhora toma uma cerveja?
– Não!
– Ó do balcão, traz uma cerveja gelada e um tira gosto pra madame.
– Eu não quero!
– Tudo bem, mas é a senhora que vai pagar.

Ela pagou R$30,00 de despesas.

– Agora me dê os documentos.
– Só quando a senhora me pagar.

Querendo se ver livre daquele tipo.
– Olha, toma todo o meu dinheiro. R$60,00.

Ele pegou o dinheiro e falou:
– Falta R$40,00, o meu trabalho custou R$100,00.

Ele pegou os documentos de volta, ficou com os R$60,00 e marcou um novo encontro.

Desta vez ela foi com o marido e um filho.

Quando o malandro viu a comitiva, deixou o boteco às pressas, largando em cima da mesa os documentos, com um bilhete.

– Seus “babilaques” estão aí, não se deixe mais ser roubada, Fessora.

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