Hoje eu falo da minha amiga Jarapoema, na intimidade Poema.
Já queimando óleo oitenta, ela continua esbanjando alegria e contando muitas histórias que aconteceram ao longo da sua vida. Uma delas ela me contou e eu ri bastante.
Moradora da Vila Isabel, frequentadora das antigas, dos bailes, das Sociedades (Democratas, Embaixadores), ela não perdia no carnaval o Cordão da Bola Preta. Numa manhã de verão, ela se arrumou toda e se preparou para bater pernas. Sua filha perguntou: “Mãe a senhora vai aonde?”
— Vou levar um presentinho para uma amiga do laboratório.
Sim, idoso é amigo de todo mundo, principalmente de funcionários de farmácias e de laboratórios.
— Mãe e por que a senhora tá colocando perfume no presente?
— É pra ele ficar cheirosinho.
E lá foi a minha amiga. Depois de ficar mais de uma hora esperando o ônibus, ela teve de ir no maior sufoco, um calor miserável e sem ar condicionado. Aliás, entra prefeito, sai prefeito e nenhum deles resolve o problema dos transportes no Rio. Com a palavra meu amigo Dudu.
De repente mais uma coisa recorrente na Cidade Maravilhosa: um assalto no ônibus. Quando um dos assaltantes chegou perto da minha amiga e solicitou o seu celular, disse: “Oi, tia, o seu celular tá muito caidinho. Faz o seguinte, fica com ele e me dá o embrulhinho que a senhora está escondendo aí.”

— Ele é para minha amiga do laboratório.
— Passa logo, vou levar para minha companheira, ela vai gostar.
Ao chegar a casa o meliante deu um sorriso de orelha a orelha e falou: “Nega velha, veja o presentinho que eu trouxe para você, sinta o perfume.”
— Até que enfim você lembrou-se da sua cara-metade.
Após abrir o presente, ela ato contínuo atirou o conteúdo em cima do companheiro, que já tomou mais de cinco banhos e o cheiro ainda não saiu.
Enquanto isso minha amiga teve que voltar para o rabo da fila, cujo cálculo é mais um ano de espera para fazer o seu exame.
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