O meu amigo Felizberto, mais conhecido como Feliz, e sua amada Dona Josefina, mais conhecida como Dona Fina, moravam em Bangu — aquele bairro do Rio onde, quando faz calor, o asfalto derrete tanto que dá até para fritar ovo nele. Quando faz frio, até pinguim tem que usar japona. Lá não tem meio-termo: quente é muito quente e frio é muito frio.

Naquela manhã de outubro, um belo domingo, meu amigo Felizberto se arrumou todo e disse para a sua cara-metade: — Querida, vou para Alcântara.
Ela, surpresa, indagou: — Fazer o quê?
Ele, mais que depressa, falou: — Vou votar. Você esqueceu que hoje é o dia da eleição?
— E precisa ir tão longe para votar?
— Meu título é de lá.
— Você não transferiu ainda?
— Não, e eu aproveito para ver os meus amigos que moram lá.
— Agora eu entendi! Vê se você não vai demorar.
— Não posso deixar de participar, é um dever cívico. Vou e volto num pé só.
Lá foi o meu amigo. Partiu Alcântara!
Logo que chegou, encontrou o amigo Pé na Jaca, que o convidou para tomar uma caipirinha no bar do seu Manel. Depois da primeira, veio a segunda e a terceira.
Nisso, apareceu o Jorge Pé na Cova: — Meu amigo, tudo bem? Que bom que você apareceu! Tem um churrasco na casa do Dagoberto, o irmão da Daguimar. Ela ficou viúva e vai gostar de te ver.
— Ela foi a minha primeira namorada!
A festa foi boa, com muita cerveja e picanha à vontade. Quando deu lá pelas nove da noite, Feliz chegou a Bangu. A “Dona Encrenca” já estava furiosa: — Até que enfim, seu Feliz! O que houve?
— A Ponte ficou congestionada.
— É?… Deu aqui no rádio e na televisão que a Ponte nunca esteve tão tranquila. Inventa outra desculpa! Você votou consciente? Votou? Afinal, você não foi para Alcântara para isso?
— Ah, é… Isso mesmo, votei!
— Em quem você votou?
— Na Daguimar!
O tempo fechou e ele foi expulso de Bangu.
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