Boca Nervosa

novembro de 2012 por

Essa estória já tem mais de 30 anos.

Hoje eu trago para vocês a estória do meu amigo Otágio. Nome diferente este do rapaz, talvez fosse a associação de dois nomes próprios. Bem, eu só sei que ele é fissurado em mastigar. Vive sempre exercitando as mandíbulas. Por isso, no bairro da Mangueira, onde ele mora, é mais conhecido pelo sugestivo apelido de “Boca Nervosa“.

“Boca Nervosa” fazia muito sucesso junto às meninas. Até as flores da Praça dos Expedicionários suspiravam quando ele, no fim da tarde de  algum domingo, dava as caras por lá. Sempre bem vestido, sapato novo, relógio no pulso, sempre diferente. Convém revelar que às vezes a roupa parecia um pouco maior, o sapato às vezes apertado nos pés. Porém, meu amigo dizia que a roupa parecia maior porque ele havia feito uma dieta para ficar mais elegante. As moçoilas adoravam. Quanto aos sapatos, meu amigo alegava que seus pés eram fortes devido à ginástica que ele fazia no quartel.

Às vezes ele aparecia com um cordão de ouro.

Certa feita, ele estava com uma medalha de São Jorge presa ao cordão, então eu indaguei se São Jorge era o Santo de sua devoção. Ele disse que sim. Por isso estranhei quando, de outra feita, reparei que a medalha presa ao novo cordão era de Santo Antônio. “Boca Nervosa”, disse-me que todos os Santos eram de sua devoção, razão pela qual ele estava sempre variando de medalha. Eu também achei esquisito, meu caro leitor. Aliás, pobre leitor, já que se fosse caro estaria a essa hora lendo crônicas do João Ubaldo, Verissimo ou Sabino. Mas como dizem que os pobres são mais solidários, cá estamos unidos, e, eu agradeço o “saco” para me aturar. Muito obrigado!

Depois do confete, voltemos ao “Boca Nervosa”. Durante um bom tempo meu amigo sumiu de circulação, já não era mais visto quando o manto da noite vinha agasalhar o dia, para que se iniciasse o show de luzes das estrelas, enquanto que a estrela principal coroava o espetáculo com seu carisma. Oh, Lua! Por todos amada.

Foi com muita surpresa que eu o vi “ancorado” num treiler, “brigando” com um “aiburguê” e uma “quimica engarrafada”. Haja estômago. Mas, para o meu amigo, o importante era dar trabalho à sua “trituradora”.

Chegando mais perto, observei que comia pouco, ele estava na pior, pois não  se trajava como antigamente. A roupa já apresentava sinais de que passava pela faze do “pé na cova” ou seja, tinha, há muito tempo, requerido “aposentadoria”. Os sapatos, ou melhor um bute, pela “cara” deveria ter participado da Guerra do Paraguai.

“Triste Fim de Policarpo Quaresma”.

– O que houve com você meu amigo?

– As coisas ficaram “brabas”.

– Você perdeu o emprego?

– Não, eu ainda sou Bombeiro.

– O governo “arrochou” o funcionário público?

– Isso também, mas…

– Tem mais? O que aconteceu com o amigo?

– O comandante me tirou do “Carro do Além”.

– “Carro do Além”?

– Não posso mais ouvir o meu “papagaio falante”.

– “Papagaio Falante”?

– Não pego mais os “presuntos” abandonados nas ruas.

– “Presuntos”?

– Fiquei tão abatido que não sinto vontade de pegar um “Gordurame”.

– “Gordurame”?

– Perdi meus “fornecedores”!

Tradução

  • “Boca Nervosa” → Apetite voraz
  • “Aiburguê” → Sanduíche na ótica do estômago.
  • “Ancorado” → Parado.
  • “Brigando” → Comendo.
  • “Quimica Engarrafada” → Refrigerante
  • “Trituradora” → Dentadura
  • “Triste Fim de Policarpo Quaresma” → Quem te viu, quem te vê.
  • “Carro do Além” → Rabecão.
  • “Papagaio Falante” → Rádio do Carro.
  • “Presuntos” → Defuntos.
  • “Gordurame” → Comida.
  • “Fornecedores” → Cadáveres de onde ele tirava as coisas.

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